Já corri todos os dias. Houve uma temporada em que o tênis ficava na porta e a pergunta nunca era se eu ia correr, mas a que horas. Hoje corro sempre que posso. A frase soa razoável, quase sensata, até eu perceber que ela descreve exatamente o que perdi.
Murakami tem uma frase que me pegou na primeira leitura de Do que eu falo quando falo de corrida e voltou a me pegar agora: se ele usasse a falta de tempo como desculpa para não correr, nunca mais correria. Todo gestor conhece esse argumento por dentro. A agenda está sempre cheia, há sempre uma reunião que atrasou, um problema que chegou às sete da manhã, uma planilha que precisa sair hoje. “Sempre que posso” é o nome educado que a gente dá ao dia em que a agenda decide por nós.
O corredor tardio
Murakami não nasceu corredor. Ele tinha um bar de jazz quando decidiu escrever, e três livros depois, entre eles Caçando carneiros, concluiu que, se quisesse uma vida longa como romancista, precisaria largar os sessenta cigarros por dia e mudar de hábitos. Começou a correr relativamente tarde, aos 33 anos. A corrida não entrou na vida dele como esporte, mas como condição de trabalho. Era o que tornava possível sentar e escrever por décadas.
Isso me diz alguma coisa sobre gestão. A gente trata o exercício como recompensa, como o que sobra depois do trabalho, quando sobra. Murakami inverte a ordem. A corrida vem antes, porque sem ela o trabalho não se sustenta no longo prazo.
Talento, foco e resistência
O centro do livro é uma tese simples. Para escrever romances, diz ele, são precisos talento, foco e resistência, e os dois últimos pesam tanto quanto o primeiro, provavelmente mais. O foco é a capacidade de concentrar os talentos limitados no que é crítico naquele momento, e quem consegue isso compensa um talento irregular ou até a falta dele.
Trocando “romance” por “escola”, a tese continua de pé. Ninguém dirige uma instituição por talento. O talento ajuda numa reunião difícil, numa apresentação, numa conversa com uma família. Mas o que segura uma gestão ao longo de um ano letivo é a capacidade de voltar ao essencial todos os dias e de aguentar o que é longo, repetitivo e sem aplauso. Planejamento, acompanhamento pedagógico, orçamento, gente. Nada disso se resolve num sprint.
E foco e resistência se treinam. Talento, não. É aí que a corrida entra. Ela é um treino diário de voltar ao corpo e ao ritmo quando tudo em volta pede dispersão.
A disciplina que não se delega
Há outro detalhe que um gestor reconhece. Murakami conta que nunca conseguiu manter um diário por muito tempo, mas que mantém fielmente um diário de corredor. O regime dele era correr seis dias por semana, nunca menos de uma hora de cada vez.
O que me chama atenção não é o volume, é a regularidade. Na gestão, quase tudo é delegável, e deve ser. A corrida é das poucas coisas que ninguém pode fazer por mim. Não tem equipe, não tem pauta, não tem ata. Ela é um lugar em que a disciplina é inteiramente minha, e por isso mesmo é um termômetro honesto. Quando deixo de correr, raramente é por falta de tempo. É porque aceitei que o dia fosse organizado inteiro de fora para dentro.
Competir consigo mesmo
Murakami nunca venceu uma maratona, e não era esse o ponto. No fim do livro, ele diz que tempo, colocação e aparência são secundários, e que o que importa é alcançar a meta que ele próprio estabeleceu, com as próprias forças. Ao longo dos anos, ele aprende a aceitar que fica mais lento com a idade.
Isso é mais útil para um gestor do que qualquer manual de liderança. A gestão educacional vive de comparação: indicadores, rankings, a escola do lado, a meta da mantenedora. A corrida lembra que existe outra régua, a de quem eu era ontem. E ensina a aceitar o próprio ritmo sem transformar isso em derrota.
O cuidado com a metáfora
Aqui preciso ser honesto com o próprio argumento. É fácil transformar a corrida em mais uma ferramenta de produtividade, um hack de performance para o gestor render mais. Murakami não faz isso. Ele reconhece que correr não é para todo mundo e que, por mais forte que seja a vontade, ninguém mantém por muito tempo uma atividade de que não gosta de verdade. Ele corre porque gosta, e a disciplina vem desse gosto, não o contrário.
Se eu correr só para ser um gestor mais eficiente, a corrida vira mais um item da agenda, e vai perder para o próximo item mais urgente. É provável que tenha sido isso que aconteceu comigo.
O que me faz falta
O epitáfio que Murakami imaginou para si é curto: escritor (e corredor), e pelo menos ele nunca caminhou. Eu não preciso de um epitáfio desses. Já caminhei várias vezes e vou caminhar de novo. Mas quando falo de corrida, o que me faz falta não é a distância nem o ritmo. É a pergunta que eu fazia antes, a de que horas eu vou correr hoje. É devolver à corrida o lugar de coisa que vem antes, e não de coisa que sobra.
Correr sempre que posso é bom. Correr porque decidi é outra coisa.

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