Três filmes, três maneiras de tentar colocar na tela aquilo que Murakami tantas vezes deixa entre as linhas.
Há uma dificuldade evidente em filmar Haruki Murakami.
Não porque faltem acontecimentos em seus livros. Há desaparecimentos, amores, mortes, gatos, telefonemas, carros, viagens, encontros improváveis. Às vezes há poços, homens estranhos, passagens para outros mundos. O problema é outro: uma parte importante do que acontece em Murakami acontece num lugar que a câmera não alcança facilmente.
Alguém cozinha enquanto pensa. Caminha enquanto lembra. Escuta uma música e, durante alguns minutos, passado e presente passam a ocupar o mesmo lugar. Duas pessoas conversam, mas aquilo que importa talvez seja justamente o que nenhuma delas consegue dizer.
Na literatura, Murakami pode permanecer aí durante páginas.
O cinema precisa fazer alguma coisa com isso.
Talvez por isso seja interessante colocar lado a lado três de suas adaptações mais conhecidas: Norwegian Wood, de Trần Anh Hùng; Burning, de Lee Chang-dong; e Drive My Car, de Ryūsuke Hamaguchi.
Não são apenas três histórias de Murakami transformadas em filmes.
São três respostas diferentes para a mesma pergunta: o que fazer com Murakami quando já não temos a voz do narrador para nos acompanhar?
Primeiro caminho: transformar memória em imagem
Norwegian Wood, lançado em 2010 e dirigido por Trần Anh Hùng, parte do romance publicado por Murakami em 1987.
Talvez fosse, entre os três casos, a adaptação aparentemente mais simples. O livro já ocupa uma região mais realista da obra de Murakami. Não há duas luas no céu, homens-carneiro ou cidades escondidas atrás de muralhas. Há Tóquio, juventude, sexo, amizade, morte e uma quantidade imensa de memória.
Mas justamente aí está o problema.
Muito do romance existe porque Watanabe se lembra.
Uma música dos Beatles abre uma passagem e o adulto é levado de volta à juventude. Na página, podemos entrar nessa lembrança junto com ele. Podemos permanecer em suas digressões, acompanhar aquilo que recorda e também a forma como escolhe recordar.
No cinema, Trần Anh Hùng precisa trocar essa interioridade por outra coisa.
Paisagens, corpos, silêncio, distância.
Naoko e Watanabe podem caminhar diante de nós, mas a câmera não consegue simplesmente nos entregar a mesma memória que a prosa constrói. O filme precisa fazê-la aparecer no movimento, na fotografia, nos espaços e nos intervalos entre os personagens.
Possivelmente essa seja uma primeira diferença importante.
Ler Norwegian Wood é, em grande medida, habitar a memória de alguém.
Assistir ao filme é observar essa memória reproduzida em imagens.
E alguma coisa inevitavelmente se perde nessa passagem — mas outra coisa aparece. A neve, o vento, os campos, os quartos e os rostos já não dependem daquilo que imaginamos. Estão diante de nós, para o bem ou para o mal.
A literatura oferecia uma lembrança.
O cinema oferece sua paisagem.
Segundo caminho: aumentar o espaço vazio
Lee Chang-dong faz quase o movimento contrário em Burning, de 2018.
Seu ponto de partida é “Barn Burning”, um conto de Murakami. O próprio material apresentado pelo Festival de Cannes registra o desafio assumido pelo diretor e pela roteirista Oh Jung-mi: construir uma história mais ampla e complexa sem preencher os mistérios do texto original.
Isso é muito difícil — e é uma grande aposta.
Porque seria possível imaginar uma adaptação tentando responder às perguntas deixadas por Murakami.
Lee faz o contrário.
Ele aumenta as perguntas.
Jong-su encontra Hae-mi. Hae-mi viaja. Retorna acompanhada por Ben. Ben é rico, seguro, estranho. Diz ter um passatempo peculiar: de tempos em tempos, queima uma estufa abandonada.
Depois disso, começamos a procurar explicações.
E procurar explicações talvez seja exatamente a armadilha.
Existe realmente uma estufa? O que Ben está dizendo? O que aconteceu com Hae-mi? O gato existe? Jong-su está descobrindo alguma coisa ou construindo uma narrativa porque precisa desesperadamente que as peças se encaixem?
Murakami trabalha muito bem com essa região em que uma hipótese começa a parecer verdadeira sem nunca se transformar completamente em certeza.
Lee Chang-dong percebe que o cinema pode fazer isso de outra maneira.
Ele nos deixa olhar.
E olhar.
E olhar mais um pouco.
Esperamos encontrar no enquadramento alguma informação que resolva o problema. Um objeto, um gesto, uma expressão de Ben. A câmera parece prometer evidências.
Mas não promete respostas; elas são do espectador.
É uma adaptação curiosa porque permanece profundamente inspirada pelo mestre, justamente quando deixa de tentar reproduzir Murakami.
A história também se torna mais sul-coreana. Cannes registrou a leitura de Lee sobre a frustração e a impotência de jovens diante das condições sociais de seu país.
Adaptar também pode ser assim?
Não transportar intacto?
Deixar a história chegar a outro lugar e descobrir o que ela encontra ali.
Terceiro caminho: desmontar e montar novamente
Então chegamos a Drive My Car.
O filme de Ryūsuke Hamaguchi, de 2021, dura quase três horas. Recebeu em Cannes o prêmio de melhor roteiro e depois o Oscar de Melhor Filme Internacional. Mas talvez o dado mais interessante para pensar a adaptação esteja nos próprios créditos.
Apesar do título, Hamaguchi não trabalha apenas com o conto “Drive My Car”.
O filme incorpora também elementos de “Scheherazade” e “Kino”, outros textos de Murakami.
Aqui a adaptação já não parece uma passagem de uma obra para outra.
Parece montagem.
Hamaguchi desmonta Murakami e reorganiza as peças.
Há o ator e diretor teatral Yūsuke Kafuku. Há sua mulher, Oto. Há o Saab que ele dirige e, depois, a jovem Misaki que passa a conduzi-lo. Há Hiroshima. Há ainda Tio Vânia, de Tchékhov, ensaiado repetidamente pelos personagens.
E há algo que Murakami conhece muito bem: pessoas tentando conviver com aquilo que não conseguiram dizer a alguém enquanto ainda havia tempo.
Grande parte do filme acontece dentro de um carro.
Isso poderia ser um problema cinematográfico.
Duas pessoas sentadas. Uma estrada. Conversas.
Hamaguchi transforma justamente essa limitação em linguagem.
Porque dirigir ao lado de alguém produz uma situação peculiar. Não precisamos olhar constantemente para a outra pessoa. Podemos falar olhando para a estrada. Podemos permanecer em silêncio sem que o silêncio pareça imediatamente constrangedor.
A intimidade cresce lateralmente.
Essa me parece ser uma ótima forma de filmar Murakami.
Não colocar os personagens frente a frente exigindo uma revelação, mas deixá-los viajar juntos até que alguma coisa possa finalmente ser dita.
O que sobra quando Murakami desaparece?
Há uma experiência interessante ao assistir aos três filmes em sequência.
Quanto menos literalmente eles parecem tentar reproduzir Murakami, mais aparece uma pergunta sobre o que significa adaptar um escritor.
Norwegian Wood procura uma forma visual para uma memória.
Burning pega o espaço de incerteza de um conto e o amplia até que ele comporte outra sociedade, outras tensões e outros fantasmas.
Drive My Car trata os textos quase como peças que podem ser desmontadas e reorganizadas ao redor de Tchékhov, do teatro, do silêncio e de um Saab vermelho.
Talvez seja por isso que perguntar se uma adaptação é “fiel ao livro” seja pouco.
Fiel a quê?
Aos acontecimentos?
Aos diálogos?
Aos personagens?
Ou à experiência que tínhamos enquanto líamos?
No caso de Murakami, essa última possibilidade é particularmente difícil.
Como adaptar a sensação de caminhar por uma cidade conhecida e perceber que alguma coisa nela está ligeiramente fora do lugar?
Como filmar uma ausência?
Como colocar numa tela aquilo que um personagem não sabe explicar nem para si mesmo?
E possivelmente não seja possível.
E talvez os melhores filmes baseados em Murakami comecem justamente quando aceitam isso.
Não tentam colocar o livro inteiro dentro da tela.
Encontram outra maneira de produzir a mesma inquietação.
Quando a história sai da página, alguma coisa inevitavelmente fica para trás. Toda tradução é uma traição, não é mesmo?
Mas, às vezes, ao atravessar essa passagem, ela encontra um mundo que não existia antes.

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